Chá do Manifesto

Uma revolta muda

Não há palavras para dizer, nem gestos para confortar. Há apenas um vazio, um vazio grande dentro do corpo que silencia a mente! Um vazio que aperta o peito.

A água que enche o olhos escorre sobre o rosto, o corpo fica imóvel e frágil e a mente dói!
Não há o que dizer.

O sentimento é estranho, é mudo e desconhecido. As imagens de ti, de nós, vivem nos meus olhos, na minha mente e não saiem de mim. Noite ou dia. As lembranças ficam mais vivas.

Hoje era o teu dia. Não existe Deus ou religião alguma que me faça crer que foste embora por alguma razão. Em nada disso eu acredito. Existe sim um destino, cruel, que luta constantemente contra a nossa existência.

Hoje faz precisamente 8 dias que te vi pela última vez. Não faz sentido. Não voltar a ver-te, a ti. Tirar a vida a uma mulher de 27 anos. Não é cruel. É uma insanidade. Tu, que eras das melhores pessoas que eu conhecia. Sem nunca criticar, sem nunca olhar de lado. Ouvindo todos, todos sem de ti fazeres-te ouvir, apoiando com essa tua serenidade e honestidade tão puras. Um exemplo, um exemplo de bondade.
A Leucemia, essa, essa que te fez sofrer, não devia existir. De todos os cancros, esse é demasiado cruel, demasiado injusto. Porque em crianças e jovens adultos ele ataca, compulsivamente, sem dar espaço a lutas e tirando todas as forças de um ser. É a morte a troçar de nós. Vivemos todos os dias a fazer planos para o nosso futuro, para o que seremos, o que teremos, o que sentiremos. Um futuro sempre longe das nossas mãos, sem nunca pensar na morte que temos ao nosso lado. Não consigo imaginar a tua dor, o teu sufoco, a mágoa e desilusão, da vida não poder ser para ti o que chamamos de “normal”. Penso e penso o que terás sentido, o que terás imaginado e se terás levado contigo o melhor da tua vida, nos teus últimos minutos. Aguardo por um sim, não sei de onde, mas aguardo. Porque a única pequena sensação de alívio, seria pensar que, nos teus últimos minutos, viste o melhor de ti, dos teus, e sorris-te.

Sei, que muitas lágrimas por ti caíram, lágrimas que juntas fariam correr um rio. Porque não há como não deixar correr essas lágrimas, por ti, que sempre mostras-te um sorriso. Sempre. Essas, deixam um sabor amargo na boca.

Não merecias partir. Tu. Não. Todos nós devíamos ter a oportunidade de aceitar a morte. A morte não é fácil de aceitar, nem de enfrentar. E não é aos 20 e 30 anos que ela se aceita. Quando eu falo, eu falo em aceitar a morte por velhice, por saber que já fizemos tudo na vida o que tínhamos imaginado, por saber que o mundo já não precisa de nós.

Imensos porquês enchem a minha cabeça, perguntas sem respostas, dúvidas e inseguranças que levam a uma revolta muda que só traz apatia. Não há forças para mudança. Mas há uma certeza! A certeza de que devemos sentir mais, amar mais e estar mais com aqueles que merecem. Porque é só isso que vai valer no fim dos nossos dias.
Contigo recordo o dia que vi partir o meu avô, quando eu tinha 5 anos. O meu querido avô que ainda hoje tão bem me recordo. Tu. Avô, deste-me a minha primeira grande lição de vida! Também o cancro te levou mas se hoje por ti choro, o dia que partiste nem uma lágrima do meu rosto caiu. Lembro-me tão bem de olhar o mundo, as pessoas a chorarem, as roupas tristes e sentir que ali só eu te sentia perto. Fiquei triste sim, por não poder vestir o vestido vermelho que eu queria tanto levar para tu me veres pela última vez. Esse vestido que eu adorava e só por isso era esse que eu queria vestir! Um funeral não devia ser com cores negras! Um funeral deveria ser para levar paz à pessoa que nos deixa. Eu sabia que tu tinhas partido e sabia apenas que não devia chorar porque tu não ias para longe, eu sentia-te ali. Não houve porquês na minha cabeça, nem apertos, nem dor. Foi simples, foi claro. Eu aceitei sem perguntas. É simplesmente incrível como uma criança consegue aceitar tão bem a morte. Tu mostraste-me isso avô, e, apesar, de pouco tempo ter tido para estar contigo, todo ele foi ouro para mim. As tuas mãos, a tua careca que tanto penteava com o pente fino da avó, o teu doce sorriso. A laranja cortada aos quartos. Tudo isso está em mim todos os dias. E agradeço-te por me fazeres ver a morte com outros olhos. Apesar de hoje, com 23 anos, ser difícil não colocar porquês, eu sei que não são precisos.

Por isso, tu, minha doce amiga, levo-te no meu coração para toda a minha vida, e choro e hei-de chorar mais, mas sei que partes como uma heroína e me deixas mais rica por ter estado a teu lado, por te ter conhecido.
A ti deixo este texto.

A ti deixo o meu sorriso, como me deste o teu a mim.

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2 Agosto 2015

~ Sofia Gralha

Nota: Gostava de pedir a todas as pessoas que se tornem dadores de medula óssea. Vamos parar o cancro, vamos parar a leucemia!
Visite o link: http://www.apcl.pt/dadores/onde-pode-tornar-se-dador

~ Um chá de gosto amargo

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