Chá do Manifesto

Na Ode Triunfal, tempo livre é tempo que não existe.

Entre a minha rotina de fim de semana, tenho por hábito sentar-me à varanda e sentir um pouco do novo dia. Sentir o sol, sentir o ar fresco, e acordar aos poucos. Afinal de contas é fim de semana! Entre isto, dou por mim a ler um artigo de jornal que abordava um tema não novo para mim, mas novo no termo – slow movement.

O slow movement defende a ideia de trabalhar menos e melhor, ou seja, se reduzirmos o horário laboral conseguimos ser mais produtivos. Acredito que assim o seja. Entre casa, trabalho, família, amigos, lazer a parcela que ocupa maior parte do nosso tempo, e da nossa vida, é precisamente o trabalho. E mesmo fora do horário de expediente parece que é no trabalho que nos concentramos. O restante tempo que deveria ser tempo para a família, amigos ou lazer. E acredito que esta teima (para muitos uma obsessão) é uma decisão nossa. Porque se existe tempo para o trabalho, como não existe tempo para o ócio?

O frenesim da cidade, a rotina, o das nove às seis, o para ontem impelem-nos ao trabalho constante e a bom ritmo para uma maior produtividade em menos tempo. Onde o trabalho acelerado continua erradamente associado à produtividade ou onde a quantidade é sinónimo de qualidade. A Revolução Industrial ditou o trabalho como grande motor da transformação do mundo e talvez tenha nascido aí este bichinho que não nos desliga do trabalho.

Impera então duas questões: como desacelerar num contexto que nos impele para exactamente o inverso? E porquê que nos concentramos nas horas de trabalho e não nos resultados?

Alain Botton, escritor e filósofo suíço radicado em Inglaterra diz que actualmente “as pessoas trabalham mais do que alguma vez aconteceu”. E que uma vida verdadeiramente produtiva só seria possível com muitos momentos de improdutividade, isto é, com momentos de ócio. No entanto, e para mim mais grave, Botton diz que quando fizermos uma pausa neste ritmo desenfreado não saberemos como usufruir desses momentos. Parece difícil aceitar a preguiça, aquela mesmo que tanto desejamos e que desafoga o corpo e a mente.

O trabalho identifica. “Somos o que fazemos.” É por isso que, estar desempregado incomoda. Não é apenas uma questão de sobrevivência, física e psicologica. A comida na mesa sacia o corpo e a mente. É uma questão de identidade. E mesmo, aquela rotina que às vezes chateia por ser rotineira, também faz falta à vida. E se, numa vertente lógica, o Slow Movement fosse implementado para reduzir o desemprego? Uma carga horário racionalizada e distribuída não faria todos tivessemos emprego? Reduzindo as horas de trabalho aos empregados, gerava consequentemente, trabalho aos desempregados.

À medida que a crise avança, parece que a vida se divide entre os que trabalham e os que estão desempregados. Por isso existe postos de trabalho em condições precárias, onde se exigem mais horas de trabalho do que aquelas que já estão escritas no contrato e onde se compete vivamente pela posição do melhor “funcionário do mês”, que é o mesmo que dizer o que mais horas trabalha.

A verdade é que a maior parte dos que trabalham sentem que trabalham muito, tanto que parece não haver espaço para si próprio, para a família, para lazer, para a sua felicidade. Aqui tempo livre é tempo que não existe.

Estamos a criar uma sociedade de pessoas infelizes, revoltadas e resignadas a uma vida de sacrifício e pouco lazer. O trabalho é importante, mas nem tudo é trabalho.

Na obra Non-Stop Inertia, o psiquiatra inglês Ivor Southwood reflecte sobre as contradições dos últimos anos nas sociedades ocidentais, argumentando que a cultura do trabalho temporário, a fragmentação, ou a velocidade dos meios de comunicação digitais nos fazem acreditar que estamos sempre em movimento. Movimento este constante mas sem nexo, sem destino. É uma acção paralisante que, muitas vezes, apenas leva à fadiga crónica ou à depressão. Uma correria que nos atropela a mente, o pensar, o viver, o respirar! Num tempo assim talvez seja urgente formular novas noções de tempo.

“As pessoas estão ávidas por alternativas. Há cada vez mais quem já tenha percebido que é necessário reinventar a forma como gerimos a economia e a sociedade desde a sua base”, diz o canadiano Carl Honoré, grande defensor do movimento slow e autor de In Praise of Slowness, “E o desacelerar terá um papel importante nessa mudança.” 

O slow movement defende a ideia que é possível vivermos num ritmo mais lento, adequado ao bem-estar e ao desenvolvimento pessoal, comunitário e ambiental. Foi com esses pressupostos que nasceu, em 2009, a associação Movimento Slow em Portugal, dirigida hoje pela antropóloga social Raquel Tavares.

Raquel Tavares diz que exemplos do movimento slow é uma pessoa “que tem um estilo de vida extenuante, do padrão executivo, que normalmente ganha bastante bem, e que decide cortar indo viver para o campo… São atitudes radicais, mas que não são para todos. Não existem receitas. O ideal é cada um encontrar o seu equilíbrio. Slow não é parar ou estagnar. É procurar equilíbrio.”

O headshake defende a ideia inerente a este movimento. Acreditamos que que somos mais criativos quando calmos, sem ansiedade e longe de distrações. De olhos postos na felicidade, olhamos para a vida, para a sua real essência. Não são os bens materiais que nos tornam felizes, mas sim estes momentos serenos e/ou de lazer e conversa entre amigos, família ou com até nós próprios. E provavelmente em áreas de trabalho mais criativas e menos sistemáticas, como o Design e a Arte esta necessidade é ainda maior, porque a inspiração nasce de momentos inesperados, não entre quatro paredes ou de oito horas sobre um computador.

Acreditamos que colocar um travão neste ritmo de trabalho e nesta sociedade que tão apressada vai não será uma caminhada fácil. Mudar este pensamento, tanto trabalhadores como empregadores, que para estes últimos ainda parece mais imperativo o trabalhador dar a sua vida à empresa, e não a si próprio não será tão acelarada assim. Mas acreditamos que pequenos passos fazem a grande caminhada. Vamos desacelarar? Vamos procurar o equilibrio? Vamos ser felizes? Vamos?

~ Desacelera, bebe um chá, sente a felicidade ~

@Isabel Cunha & Sofia Gralha

fonte: Público

 

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