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Memórias da consoada na guerra do ultramar

Era 24 de Dezembro de 1972 e Maria Moura partia de Vila Cabral, Moçambique, até ao mato, num avião. Queria ir ter com o marido, Manuel Moura, militar que tinha ficado de prevenção naquele dia e já não podia ir passar o Natal a casa. “Se a mulher do comandante também lá estava com o marido, eu também tinha o direito de estar”, recorda Maria Moura, que levava consigo o filho David, de seis anos. Quando o avião aterrou o marido ficou estupefacto. Estava a jogar futebol e viu a mulher chegar sem estar à espera.

“Achei fartura a mais. Perguntei logo o que é que ela estava ali a fazer”, diz a sorrir. Uma aventura que não era a primeira para a esposa do atual sargento chefe aposentado, de 77 anos, que combateu na guerra colonial em Moçambique e em Angola. Maria, agora com 73 anos, sempre que podia apanhava um avião e ia ter com o marido. “Já tinha carne de vaca e camarão para a consoada. Assim que me disseram que ele ia ficar de prevenção e não podia ir passar o Natal a casa eu disse logo ao piloto do avião para me levar ao mato”, afirma, enquanto vão mostrando fotografias e uma colher de pau com “Moçambique” cravado na madeira. Recordações muito especiais e que a fazem afirmar que “era uma aventureira”, pois nessa noite, e em muitas outras, dormiu em colchões da tropa no chão.

O Natal para os ex-combatentes do ultramar não era um período fácil. Não só pelas saudades de casa e da família mas também porque a guerra seguia o seu curso indiferente ao calendário. Rogério Ferreira, 68 anos, que na época era furriel e combateu na Guiné entre 1970 e 1971, conta: “Estávamos a passar a consoada no quartel e houve um ataque pelas 19h00, quando começávamos a comer. Tivemos logo de nos ir esconder para dentro das valas com o prato da comida”. Acrescenta que, depois desse ataque, a noite de consoada ficou estragada e que se ficaram apenas pelas aguardentes.

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Também Jorge Rosa, de 72 anos, atualmente tenente-coronel na reforma, se recorda de uma consoada em que viveu dois ataques em Angola. “No dia 24 de Dezembro os soldados precisavam de um oficial para ir comandar uma coluna para ir buscar o correio e eu fui. A meio da viagem de jipe rebentou uma emboscada, mas foram só uns tiros e foram-se embora. Quando chegámos ao quartel fomos festejar a noite de Natal”, recorda, acrescentando que nessa mesma noite houve também um ataque no quartel. “Felizmente não houve mortos. A vida em África era isto, sempre com o coração em ânsias”, diz. Meses depois foi ferido em combate e ficou sem uma perna. Tem uma cruz de guerra e afirma que no Natal havia uma melhoria na alimentação.

“Não faltava o bacalhau, que às vezes era mais sal do que bacalhau. Não havia bolo rei, mas havia umas bolachas fabricadas pela manutenção militar e um copinho de vinho”, salienta o sargento-ajudante aposentado Almiro Dias, 81 anos, que combateu em Moçambique, Angola e Guiné, entre 1960 e 1974, dizendo que aquela era a época do ano em que todos se lembravam da família e dos amigos com mais saudade. Na noite de consoada era redobrada a vigilância, pois as forças adversas podiam aproveitar para efectuarem um ataque. “Quem estava de serviço tinha de estar com atenção para salvaguardar os outros camaradas que não estavam de serviço”, afirma.

Jaime Cunha, 81 anos, que na época era primeiro-sargento e que esteve em Angola durante quatro anos, diz que na consoada se procurava fazer no mato o que se fazia em casa. “Nós tentávamos esquecer a saudade bebendo mais um copo e lá se ia aguentando”, relembra, emocionado.

Depois havia quem usasse os talentos para o desenho em cartões grandes de Natal. “Havia sempre uns rapazes com jeito para o desenho e fazíamos um cartão escrito com Feliz Natal, tirávamos fotografia e mandávamos através de carta para a família em Portugal”, conta António Madeira, de 76 anos, que era primeiro-sargento enfermeiro. “Nós éramos uma família. Nessa época para nos divertirmos até fazíamos passagens de modelos”, diz. Combateu pelo país em Angola, entre 1961 e 1963, e recorda um ano em que, antes do Natal, andaram 58 dias consecutivos a comer uma lata de atum, uma lata de sardinha e um pacote de bolachas por dia. E também sentia muitas saudades. “Estávamos todos longe, tão longe. Estávamos todos isolados no mato. Era muito difícil. Lá não havia onde se comprasse uma cerveja ou uma garrafa de água”, lembra.

Mas também há quem tenha boas recordações desses tempos e afirme mesmo que se tivesse de voltar novamente à guerra, gostava de voltar a fazer o que fez. Rui Sobral, 65 anos, actualmente é empresário e foi soldado em Moçambique entre 1970 e 1974. “Numa consoada tivemos uma festa de Natal, na zona do mato, em plena guerra. Estava lá um primeiro-sargento connosco e estava lá a esposa grávida. Passámos a noite a fazer rabanadas. Éramos nós e uma senhora. Também se cantou o fado e tocaram-se umas guitarradas”, referiu, confessando ainda que “havia muita saudade da família, mas aquela era uma nova família militar”.

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~ Recordações de Natal debaixo de fogo ~

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Inesquecíveis cantinhos do coração

Num ápice tudo muda. A forma de olhar o mundo e a sensibilidade que se alcança numa experiência única. Há momentos que não se explicam, apenas se sentem. Torna-se bastante difícil descrever o quanto aquela semana me preencheu a alma. O quanto é bonito ver aqueles sorrisos, as almas preenchidas com aquilo que nem nós imaginaríamos. Todos tinham o olhar recheado de algo especial que nem sequer tinham reparado. A vida não lhes permitiu. Mas ali, durante aquela semana, alguém se preocupava com eles. Sim, falo de jovens que têm a vida inteira pela frente, mas que não tiveram a sorte de viver numa família estruturada, como a maioria de nós. A instituição é o seu lar e a esperança de um futuro melhor.

O campo de férias começou de forma difícil: todos testavam os nossos limites. Eram mais de trinta. Já não eram crianças: eram homens e mulheres a crescerem a cada dia. Nós, como monitores, tínhamos de ser persistentes e lutar, todos os dias, para atingir aqueles sorrisos. Um simples sorriso que para nós seria tudo.

Brincadeiras, animação, momentos de pressão, mas com trabalho de equipa chegámos ao fim concretizados, como sempre. Tivemos de ser fortes para continuar, com o mesmo objetivo cravado no coração: aqueles jovens iriam ter momentos felizes que nunca mais se iriam esquecer. Parece algo muito simples, não é? Mas para eles foi tudo. A forma como entraram no campo e como saíram dele. Estavam vivos e felizes. Alguém se tinha dedicado a eles. Alguém acreditou e não desistiu. É este sentimento que lhes pretendíamos transmitir. No fim, após noites mal dormidas e dias em atividade constante, sabíamos que seriamos mais felizes depois daquela semana, que pareceu ser uma vida inteira. Seríamos pessoas mais preenchidas com aqueles sorrisos, por não desistirmos de quem também não desistiu de nós.

Queriam recordações nossas. Demos pulseiras e trouxemos umas quantas. Objetos que simbolizam o mundo. Sempre que olho agora para o meu pulso sinto o coração cheio, por ter feito bons amigos, acima de tudo. Estes jovens são muito especiais. O problema é que são, na maioria das vezes, rejeitados pela sociedade. Usam uma postura defensiva, porque não permitem que ninguém lhes entre na alma. Usam uma máscara. No fim, eles são possuidores de uma sensibilidade enorme e de um espírito de sacrifício que nem eles calculam. Soubessem a força que têm e o mundo seria deles. Precisam de alguém que os compreenda, que converse com eles, que brinque e alinhe no seu sentido de humor. São jovens em busca de um sentido de vida. Em busca daquilo que todos queremos: felicidade.

Mais do que dar, foram os sorrisos, as lágrimas, os momentos difíceis e de alegria que levaríamos agarrados a nós em cada cantinho da nossa existência. Se me vou esquecer algum dia daqueles sorrisos e daquelas lágrimas? Não, ficou para sempre no coração, na memória, em cada pedaço de mim. Quando se despediram, por entre lágrimas, sorriram e disseram “Obrigada”! Num misto de introspecção, depois de tamanha experiência, não há nada mais grato do que esta memória inesquecível: um simples “obrigada” e um abraço apertado. Seriamos mais felizes todos os dias a partir dali. Se tivesse sido fácil não teria valido a pena.Venha quem vier, aconteça o que acontecer, nunca ninguém irá conseguir compreender o que se sente em tamanha experiência. O quanto o coração vibra por um jovem sorrir. Como as cores ficam mais bonitas. Como todos os problemas se tornam mais pequeninos. Como simples dias transformam a nossa maneira de ser para sempre.

Citando Fernando Pessoa “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Não há frase mais certa e bonita. É o que sinto quando olho para trás e não há nada mais genuíno do que aquilo que guardo num dos cantinhos mais especiais do coração: Obrigada por me terem ensinado tanto!

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~Um chá de recordação~

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Sociedade, essa raça louca

Há pouco tempo estava eu a ler um artigo no Público, relacionado com a pressão dos vinte e poucos anos, e comecei a refletir sobre esta idade que tudo coloca em questão e em que somos obrigados a seguir determinados padrões impostos pela sociedade. Somos pressionados a toda a hora: temos de ser os melhores, decidir o que fazer profissionalmente para o resto da vida, preencher os requisitos para sermos bem sucedidos a nível amoroso: ter um(a) namorado(a) parece até ser quase tão importante como respirar.

Felizmente há ainda quem acredite que a felicidade não passe só por aí, mas sim na relação que temos connosco próprios e na expansão de novos horizontes através de viagens alucinantes pelo mundo. Mas, na maioria, todos queremos parecer os “certos”. Vivemos numa corrida incontrolável para atingir uma meta que não sabemos muito bem qual é. Seguimos padrões que, no fundo, nem sequer concordamos. Queremos parecer  os melhores. Mostramos os sorrisos e escondemos as lágrimas. Partilhamos com os outros uma vida equilibrada ao mesmo tempo que estamos cada vez mais longe de nós próprios.

Competimos desalmadamente por um emprego, muitas vezes, precário: sabemos que temos de começar por algum lado. E para o conseguirmos fazemos de tudo. Queremos dinheiro, diversão, um(a) companheiro(a). Há até quem fique por um namoro de longa data por uma questão de comodismo. “Agora já é muito tarde para mudar”. E assim se vive numa aparente felicidade, composta pelo cinismo dos dias que correm sem sentido. E assim vamos caminhando mais distantes dos outros. Cada vez mais longe dos nossos sonhos. Cada vez mais sem questionar. Cada vez mais estúpidos e comodistas. Olhamos para o nosso umbigo só e apenas. Já nem amigos de verdade somos. Somos falsos e mesquinhos. Dizem que este é o melhor período da nossa vida, mas estragamos tudo com a puta da conveniência.  

Cada vez somos menos livres. Pensamos de acordo com esta sociedade maluca. Queremos seguir a norma, para não sermos expulsos dessa dita sociedade, “essa raça louca”, que destrói sonhos. Enquanto não pararmos de viver ambiciosos com os sonhos que a sociedade faz por nós, jamais seremos livres. Mas afinal, o que é a liberdade? É o pensamento a escorrer para fora das normas, das pessoas, das multidões que nos sufocam e que não nos deixam ser nós próprios. Esta sociedade maluca que nos vai ofuscando e camuflando o nosso verdadeiro instinto. 

Já pensaram como nos vamos manter depois da máscara cair? Sim, a máscara vai cair. Ela é bonita, mas só aos olhos dos outros. Aos nossos, o placar de suporte vai-nos partir ao meio e nós vamos cair com ele. Somos um paradoxo entre a liberdade de nós próprios e a liberdade falsa de uma sociedade utópica que continuará a dissolver todos os nossos sonhos mais puros, inocentes e bonitos, toda a nossa alma que teima em se esconder dentro de nós e que dificilmente sairá cá para fora. 

Mas…há ainda quem dê o Grito do Ipiranga. Há quem viaje, quem goste da própria companhia, há quem rume a projetos de voluntariado para outros países, há quem VIVA de acordo com a própria alma. Há ainda quem troque as regras do jogo. 

Há ainda quem se atreva a ser livre sem ti, ó sociedade louca!

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~ Mil chás de liberdade ~

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A vida é feita para voar!

Sais de uma rajada só e sabes que te espera o mundo lá fora…

Sais porta fora na ânsia de viver mais uma aventura, mais uma lição que te fará sentir arrepios na pele e o estômago às voltas. Precisas de desconforto e desamparo para te conseguires amparar sozinho. Enfrentas tudo e por instantes até tens vontade de desistir. Mas, num ápice, cresceste e nem deste por tamanha transformação. Afinal conseguiste lidar com todas as desilusões que te passaram pelo caminho e por todas as dificuldades que pareciam tão cruéis no início. 

Sais para lá do teu porto de abrigo e doí-te o coração em deixares para trás pessoas, sítios, cheiros e momentos. Dói mais do que nunca quando pensas no que realmente te preenche a alma. Não por tristeza, mas porque a saudade magoa.

Descobres um mundo diferente, com pessoas que te olham sem saberem quem realmente és. Tentas não olhar para trás. Avanças, e já quase sem estremeceres, projetas em ti o que não esperavas sequer possuir. Passas a caminhar por passeios diferentes, cruzaste com outras pessoas, apanhas outros transportes e simplesmente quebras as tuas rotinas passadas. Suspiras de alívio, mas dói tanto ao mesmo tempo. Não tens saudades de rotinas, mas de pessoas. Como as relações humanas nos movem o coração…

E é precisamente nesses momentos que descobres: o conforto começa quando sentes desconforto e respiras mais profundamente depois de respirares outros ares. Percebes a importância que certas pessoas têm na tua vida, quando os teus dias são preenchidos pelo vazio da distância que te separa delas. 

Vais quase morrer de saudades, mas no fim vais compreender que se elas não existissem nunca descobririas o que verdadeiramente sentes por quem deixaste para trás. E sorris!…Sorris todos os dias com mais vontade, mesmo com a saudade estampada no coração. A cada dia que passa aprendes a viver com ela e cresces num mundo sem rumo que te desafia cada vez mais. 

Descobres no fim desse tempo, depois de todo o sofrimento, reprovações, dificuldades, despedidas, saudades, partidas, chegadas, cartas, telefonemas à distância, sonhos perdidos por outros, angustia, novas alegrias e adaptações, que tinhas de sentir tudo isso à flor da pele. Sabes porquê? Aprendeste que esse dilema profundo entre os nossos desejos e aquilo que é a realidade que temos de enfrentar, se chama viver. E aprendes a não rejeitar a vida e aquilo que ela te dá. Seja bom ou mau, ela lá terá as suas razões por te colocar à prova tantas e tantas vezes.

Agora consegues sorrir com o mais simples da vida, no conforto que sentes diante do desconforto. Sabes que acabarás por viver outras mudanças, num círculo vicioso que já nada te faz temer. 

Sabes que mais? Estás a aprender a ser forte para poderes ser ainda mais feliz um dia. Tu vais sê-lo, demore o tempo que demorar… num dia depois de amanhã.

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~ Ultrapassa os teus próprios limites ~

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Ser artista é ser comunicador

Eles são seres muito especiais. Não têm nada por fora que os distinga. É na delicadeza da alma e do olhar que os podemos encontrar. É nas palavras e tons que usam que tornam a vida mais limpa e mais bonita. São sonhadores e com um sentido profundo de ser. Buscam o perfecionismo a cada instante. Uns usam a escrita, outros a música, outros a pintura e até a representação. Todos eles têm valor. Através da arte são comunicadores do mundo por transmitirem aos outros o que lhes vai na alma.

A música é pura comunicação, sintonia, magia e inteligência. A pintura busca nas suas cores e formas a beleza de sentimentos e pensamentos. A escrita transforma simples palavras em poesia. A representação encontra na arte do teatro ou da dança a beleza de recriar a realidade.

Por vezes, grandes artistas desistem do seu grande sonho. Talvez por falta de inspiração, de tempo ou desmotivação. Os momentos de bloqueio existem. A inspiração tanto poderá surgir subitamente, como desaparecer se não estiverem atentos. Mas conseguir trespassar estados de alma de uma forma tão profunda não é para todos, pois não? Os artistas estão atentos a todos os sentidos, até ao mais pequeno pormenor. Têm um coração enorme e uma sensibilidade mágica.

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Há pouco tempo fiz uma visita guiada aos Azulejos de Lima e Freitas na Estação do Chiado. Fiquei surpreendida com a imensidão da subjetividade contida em algo que todos os dias passa despercebido ao olhar de quem vive apressadamente. Deveríamos parar e procurar mais pelo saber. Ainda temos tanto por descobrir. Temos sempre. E os artistas ainda mais.

Por isso, caros artistas lutem pela vossa própria arte e sintam-se concretizados a partir do momento em que consigam colocar no interior dos outros o que vive no vosso. Espalhem grãos de magia e inspiração pelo mundo. Não deixem nada escondido, nada por dizer. Expressem a vossa arte e as vossas ambições. Sejam comunicadores do mundo.

Caros escritores, músicos, poetas, atores, pintores e até mesmo fotógrafos, não desistam da vossa arte, da vossa forma de comunicação espontânea com o mundo. Não desistam daquilo que vos faz sentir vivos e que vos faz acreditar num mundo tão belo. 

Não desistam do vosso maior sonho!

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~Vivam a vossa arte… Vivam o vossa comunicação ~

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És responsável pelo que cativas

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou tão importante”. A raposa do livro “Princepezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry, já  sabia a importância do tempo, do esforço e da capacidade de reconhecermos algo como nosso. Ensinava que o tempo dedicado à nossa rosa a torna diferente e especial. Hoje, não sabemos cuidar dela.

Somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos. Dedicamos tempo, esperança, força, expectativas e sentimentos. Seja numa simples amizade, num amor, ou numa amizade colorida. A rosa deveria ser o nosso maior tesouro. Como é possível mandá-la ao chão, depois de tanto tempo dedicado? Depois de termos dado o nosso mundo ao outro? Já não sabemos o valor da palavra CATIVAR: ou melhor, sabemos, mas não o respeitamos. 

O mundo do outro é muito importante. Se o cativarmos seremos eternamente responsáveis por ele. Temos de saber cuidar, sermos humanos e inteligentes. Sim, a inteligência não é só fazer cálculos matemáticos e saber vários conceitos detrás para a frente. Ser inteligente é compreender que o mundo não vive só dentro do nosso umbigo e que há um mar de sentimentos além de nós. Despertamos o mundo do outro (a nossa rosa) e por isso temos de respeitá-lo. Então, porque motivo se desiste e a tratamos tão mal? Será que não gostamos de nós o suficiente ao ponto de não a guardarmos com carinho? 

O que eu vejo são amizades a serem trocadas por grandes nadas, amores a serem deitados fora num simples obstáculo e amizades coloridas que acabam porque afinal tudo não passou de uma “precipitação”. CATIVAR! Alguém sabe a importância que esta palavra assume? Alguém tem noção do quanto isso toca, todos os dias, a nossa vida? Somos cobardes. Trocamos a nossa bela e fresca flor por banalidades, por fraqueza, por cobardia. Sim, cada vez somos mais egoístas. 

Antes, as gerações eram ensinadas a reconcertar, quando alguma coisa se estragava. Hoje, simplesmente trocamos por outra. Vivemos na geração descartável. Esta é a razão pelo qual as amizades já não são tão sinceras e os amores muito menos duráveis: na verdade, nunca chegam a ser amor. Vivemos de simples paixões. Umas mais avassaladoras do que outras. Vivemos para nós. Esquecemos-nos da nossa rosa. Seguimos caminhos que definem por nós e vendemos a alma. 

A tua rosa é tão bonita. Não a estragues. Não a desvalorizes. Se lhe dedicaste tempo é porque ela é especial. 

Assim se cativares alguém, fá-lo com responsabilidade e certeza, porque ao fazê-lo tornas-te parte desse outro alguém, se ele for também capaz de o fazer contigo. Eu acredito. E tu?

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~ És eternamente responsável por aquilo que cativas ~

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Um brinde ao Ribatejo

“Sou Ribatejana”, respondia eu com um nítido orgulho no olhar, quando me perguntavam sobre as minhas origens. Já vivi em várias cidades deste nosso Portugal, mas as raízes nunca deixaram de me aquecer o coração. A beleza da lezíria e do Tejo, o sotaque ribatejano e todos os bons petiscos: a Sopa da Pedra de Almeirim, os fabulosos Torricados, os pratos de touro bravo regados a vinho, e claro, sem nunca dispensar um bom tintinho à moda do Ribatejo.

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Por este dias a região vive grandes festividades, convívio entre amigos, petiscos e as tradicionais corridas de touros. É que a Feira Nacional de Agricultura está de volta a Santarém: começou no passado sábado (6 de junho) e prolonga-se até ao próximo domingo (dia 14). No Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA) podem ser visitadas variadas exposições: maquinaria agrícola, pecuária, bovinos, caprinos, cavalos, artesanato e produtos alimentares, desde doçaria a enchidos. Há ainda as maravilhosas provas de degustação de vinho.

Também música não falta. Muitos concertos preenchem o cartaz: amanhã é noite de Azeitonas. No penúltimo dia do evento Anselmo Ralph sobe novamente ao palco como no ano passado, onde conseguiu encher por completo o recinto da Feira. Além disso, à meia noite, pode-se assistir sempre à famosa picaria ribatejana. Sábado é noite de Mesa da Tortura para os mais corajosos. 

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Ontem, visitei a Feira do Ribatejo com uns amigos. Fomos logo ao pavilhão dos produtos alimentares. Queríamos provar uns bons queijos, chouriços e mel. Passámos por um expositor da Golegã que nos despertou bastante o interesse. É que o gestor Jorge Antunes mostrou um entusiasmo desigual ao falar do seu negócio, que já esteve mais longe de ir além fronteiras.

É o pioneiro dos Pastéis de São Martinho: começou a experimentar na cozinha por tentativa erro, até encontrar a receita ideal em 2013 e patentear a marca. Pretendia criar um pastel típico da vila da Golegã e assim juntou os ingredientes conhecidos da região: a castanha assada e o abafadinho. E não é que brindámos com um bom abafado e provámos um pastel de São Martinho? Lembra o Pastel de Belém, mas com recheio de castanha. No forno, é possível cozer oitenta pastéis em apenas vinte e cinco minutos.

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Jorge Antunes diz que ser autodidata é fundamental para um negócio de sucesso. Por isso é que no início do ano abriu um novo espaço de restauração na cidade de Fátima. Lá serve o “Segredo de Fátima”, pastel que deu nome ao estabelecimento. Tem recheio de castanha e chocolate, polvilhado com amêndoa. A massa é também uma receita própria e é uma homenagem aos três segredos de Fátima. 

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O novo conceito procura apostar em sabores totalmente diferentes. A sobremesa “Baba de Cavalo” é exemplo disso. Pode-se juntar ao menu do almoço ou jantar. Provámos e o sabor é irresistível. Só que a receita é segredo. A sobremesa é cremosa, fresquinha e deixa qualquer um preso até ao último bocadinho. E a verdade é que as vendas têm disparado.
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Além disso, no restaurante “Segredo de Fátima”, servem-se ainda a bifana em bolo do caco e o hambúrguer de bacalhau. Um conceito diferente e de enorme sucesso no mercado. Um exemplo de espírito empreendedor e, sobretudo, trabalhador.

A crise é também uma época de novas oportunidades para os mais audazes. Com espírito de sacrifício tudo é possível. Novas marcas e novos negócios de sucesso poderão surgir. É este o espírito que valorizo na região. Somos batalhadores. Somos de sangue lusitano. Enfrentamos o touro pelos cornos e somos, acima de tudo, amantes dos nossos costumes.

Sou Ribatejana de alma e coração. Serei sempre, com muito amor às minhas tradições. 

Venham visitar a 52ª Feira Nacional de Agricultura.

Os bilhetes diários são sete euros. 

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~ Um Chá e um brinde ao Ribatejo ~

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Ainda há cartas de amor?

“Os apaixonados ainda escrevem cartas”. Li num pacote de açúcar num dos meus chás matinais. Fiquei estática a olhar para ele. Mexia comigo mais do que aqueles textos bonitos e recheados de melodias românticas que por aí andam a saltar de página em página. Colei o pacote na parede do quarto. Dia após dia olhava para ele e questionava:“será que ainda escrevem?”.

As novas tecnologias encurtam agora distâncias numa questão de segundos. Basta um simples “click” e ali estão os modernos apaixonados a trocar mensagens lamechas em plena rede social. Como se o amor fosse uma montra de moda, onde todos seguem a tendência, sem questionar. O amor virou aparência e a partir dele vieram os amantes modernos. Trocam mensagens de texto e tiram selfies para partilhar no Facebook ou Instagram. O amor já não é capaz de viver em casulos isolados. Ao contrário disso, passou  a ser partilhado e comentado por todos.

Estar apaixonado não é gostar tanto de alguém que o coração bate a mil à hora? Amor não é querer essa pessoa como o maior presente do mundo? Não é ir até ao fim do mundo para estar com ela? A verdade é que as tecnologias passaram a ser a solução mais fácil e cómoda.

Será que ainda sabemos escrever cartas para aquela pessoa que nos faz sentir borboletas na barriga? Seremos ainda capazes de expressar esse sentimento imenso com a nossa própria letra, de alma grande e partilhar apenas com quem nos invade o pensamento todos os dias? O que se verifica é uma panóplia de aparências que vão sair da moda, porque um dia perderão a piada.  Vivemos de amores enfeitados por aquilo que ainda ninguém conseguiu definir.

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O pacote de açúcar permanece na parede do meu quarto. E todos os dias me provoca. Os apaixonados ainda escrevem cartas, mas são cartas diferentes. Já não as podem guardar numa gaveta e mais tarde reencontrá-la com a cor da letra fugida pela passagem do tempo e dizerem num tom nostálgico: “esta pessoa faz parte da minha história”.

E se a carta já não for do nosso apaixonado, então surgirão recordações de uma doce paixão que apareceu e que se foi, mesmo que nos tenham partido o coração em mil pedaços.  E que importa? Temos ali a letra aos nossos olhos, as palavras fugidas e sinceras, porque não há nada mais bonito que escrever pelas nossas próprias mãos. Não há nada mais genuíno que a simplicidade da recordação.

O mundo rápido e louco transformou os sentimentos em passagens rápidas e robóticas. Amor agora é conforto e não luta. É egoísmo e não bondade. O amor passou a ser comparado a uma peça de roupa: depois de perder a graça é trocada por outra. E o amor que escreve cartas, poesia e canções vai-se embora do mundo que não consegue entrar. 

Na verdade, só os corajosos é que ainda escrevem cartas de amor. Só eles têm a coragem mágica de sair da zona de conforto e expressar tudo o que lhes vai na alma. Partilhar um sentimento tão intenso é tudo menos fácil. 

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Caros apaixonados, não tenham medo de ser corajosos e loucos. Escrevam cartas. Esqueçam a moda. Rasguem a ousadia e declarem-se numa simples folha de papel. Podem até perder uma hora na fila dos correios e a carta até poderá só chegar no dia seguinte, mas o vosso apaixonado vai tocar na folha que também tocaram e sentir a vossa letra no papel.

E haverá maior beleza do que essa? O esforço, o genuíno, o apaixonante. Não tenham dúvidas: as cartas vão ser guardadas para sempre, nos sítios mais escondidos para desesperadamente serem esquecidas e mais tarde recordadas. 

Os corajosos ainda escrevem cartas, porque acreditam que o amor sincero e altruísta ainda é possível. Que o amor difícil é o mais forte de todos. E porque isto de gostar de alguém causa vertigens. É difícil de controlar e expressar. Não é nada fácil. É uma tempestade sem fim. Mas é tão bonito quando vivido. Acreditem. O amor que escreve cartas é tão raro. Mas ainda existe. E posso garantir: é inesquecível.

«Quantas Sophies pensas que existem no mundo? Não esperes cinquenta anos para descobrir!»

In Letters to Juliet

~ Mil Cartas e Um Chá ~

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Bullying: O pesadelo anunciado

O toque de intervalo soou na sala de aula. A angústia e o sentimento de rejeição apoderaram-se dela. Tinha apenas doze anos. Gostava de ler, de observar a natureza e de escrever. Era diferente e tímida. Mas elas, bem, elas eram todas iguais. Pelo menos em grupo. Em grupo as colegas de turma eram fortes (ou não seriam a mais fracas de sempre?). Lá, no segundo piso da escola, nada de mal lhe poderia acontecer. A campainha era o terror anunciado, com o som dos passos apressados pelas escadas abaixo. Mais uns minutos de tortura psicológica. Ela sentia-se bloqueada, numa luta que não lhe deveria pertencer. Uma disputa de muitas para uma só.

Havia uma líder, que escondia fraqueza num ar superior. Todos os dias se reunia com a matilha e focava toda a atenção na mesma presa. No fim, a rapariga de olhos cabisbaixos ia para casa e fechava-se no quarto. Escrevia no diário e chorava. Não havia esperança. Todos os dias eram iguais. Humilhação e exclusão por parte dos colegas. Afinal, fazerem parte da matilha para não serem as presas, era o caminho mais fácil.

Ela não percebia a maldade daquelas miúdas. Mas, um dia acordou e bateu o pé. Deu um golpe de coragem e resolveu mudar de vida. Contou aos pais e aos professores o quanto estava a sofrer. A revolta da matilha foi incalculável. Sofreu ainda mais. Todos os dias queria desaparecer. Teve a sorte de ter bons pais por perto. Os pais das agressoras não acreditavam. “Afinal, como é que a minha filha faz algo do género?”. Mas fazem, sabem? As vossas queridas filhas não são santas. E a culpa é vossa, porque não lhes transmitem os valores certos. A culpa é da vossa falta de atenção com elas.

Estamos a falar de pessoas da futura sociedade. E quanto aos professores: pretendem continuar a formar mentes inúteis? Formar egos que só existem rebaixando egos alheios? Vão apenas despejar mais matéria formatada, veiculada nos livros, ou vão ensinar valores cívicos? Ajudem estes jovens a encontrar um caminho onde a força não seja usada contra os outros.

Essa menina, de olhos curiosos, que pensava muito sobre o mundo, mudou de escola. Fez novos amigos. Saiu fortalecida. Percebeu que não pertencia à matilha por ser diferente e ter uma vida especial por descobrir.

O vídeo que está a circular pelas redes sociais e na comunicação social tem sido alvo de comentários por parte de muitas pessoas, sem a mínima noção do que é o bullying. Muitas nunca foram todos os dias para a escola com as pernas a tremer e as lágrimas guardadas em páginas de um diário. Só sabem a teoria. Que tal partirem para a ação? Que tal entenderem que os dois lados da moeda necessitam de ajuda? Quem agride tem necessidade de atenção. Quem é agredido, precisa de carinho. E quem agride também. Precisam de alguém que lhes dê a mão. Que mande uma palmada na mesa.

Aquela menina teve o carinho de uma família estruturada. Outros meninos podem não ter. Vamos permitir que uma vida que ainda mal começou seja miserável? Que uma auto estima ainda em formação leve ao suicídio? Parem de falar sem saber. A solução está dentro das vossas próprias paredes. Cuidem dos vossos filhos, transmitam-lhes amor e carinho. Mostrem-lhes que eles valem mais do que pensam. E, caros professores, não foquem tanta atenção em critérios banais. Observem, transmitam valores de companheirismo e de igualdade.

A campainha voltou a tocar. Saiu pelos portões da escola aliviada por menos um dia aterrorizante. Ela, a quem que lhe chamavam de anti social, “tam-tam” e outras agressões de carácter psicológico, hoje é confiante e comunicativa.

A menina que trazia sempre um livro debaixo do braço e que suava quando a campainha da escola tocava, ela sim, sabe hoje o verdadeiro significado da palavra bullying. Vão continuar a comentar sem saber? Ou vão começar a tomar atitudes?

Vão apenas promover campanhas de sensibilização? Ou que tal começarem na vossa própria casa, na vossa própria sala de aula?

Menos palavras, mais ação. Pensem nisso.

~Um chá de reflexão ~

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WHAT'S UP

Headshaker de alma e coração

Há quem diga que sou obstinada, divertida, comunicativa, revolucionária e até que tenho uma pitada de loucura. Sim é verdade, não me considero uma pessoa normal. Recuso-me a viver sem pensar sobre o mundo. Nunca serei conformada. Quero ser mais e melhor todos os dias. Por isso, deixo sempre uma pétala nas pessoas, nos momentos, nas palavras, nas entrelinhas.

Sou de Santarém. Ribatejana de gema, mas amante do mundo. E essa enorme ânsia por descoberta levou-me a sair de casa aos dezoito anos. Rumei a Coimbra para me licenciar em Comunicação Social na Escola Superior de Educação. Uma cidade que me deu mais do que um canudo. Conquistei amigos, experiências, encantos e novos valores cívicos.

Aos vinte anos fui viver sozinha quatro meses para Lisboa: um estágio no jornal Diário de Notícias motivou-me a continuar na área da comunicação. Queria escrever. Escrever muito.

Depois regressei a Coimbra, para um Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Faculdade de Letras. No segundo ano fui colocada na RTP do Porto, como jornalista estagiária. Vivi em Vila Nova de Gaia durante cinco meses. Fiz bons amigos na cidade Invicta. Fiquei apaixonada pelas gentes do Norte. O sotaque, a simpatia e um Douro que transborda de beleza são inesquecíveis. Fascinei-me pelo mundo da televisão: o poder da imagem e o trabalho de equipa foram uma experiência desigual.

Coimbra, que me viu a entrar menina, observa agora uma jovem mulher determinada, confiante, lutadora e sempre a querer mudar o mundo. Por falar nisso, tenho um sonho: fazer voluntariado num país com uma cultura totalmente diferente.

Hoje, com 23 anos, estou a concluir a tese de Mestrado e inserida em diversos projetos. O teatro é um deles, onde posso expandir a criatividade. Sou apaixonada por literatura e fotografia. Não vivo sem desporto. Um bom pé de dança no final do dia cai sempre bem. Caminhadas pela natureza refrescam-me a alma.

Sou muito frontal. Não tenho papas na língua. Nem sempre tenho o melhor feitio do mundo, mas um sorriso no rosto para mim e para os outros nunca me falta. Sou otimista e curiosa. Quero voar por céus altos e bonitos. Aqueles que posso conquistar com muito trabalho. Sim, tenho espírito trabalhador. Bichinho carpinteiro não me falta e muitas ideias na mente. A vida não é fácil, mas que piada teria se fosse? Quero inovar e transformar o mundo dos outros num lugar melhor.

Ser uma headshaker é um novo desafio. Que agarro, como sempre, com muito orgulho.

~ Vamos ser mais felizes com um chá de loucura? ~
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