Sem categoria

Lisboa

Hoje olhei para ti e estranhei-te como das primeiras vezes que me deparei contigo. Senti-te distante, senti-te muito menos minha do que tens sido nos últimos anos.

É verdade que já quis deixar-te um par de vezes e pensei nisso outras tantas…mas nunca consigo. Há sempre alguma coisa que me prende a ti, só ainda não descobri o quê. Mas não gostei nada da forma como me fizeste sentir hoje.

Gosto quando acordo e te sinto minha. Gosto de ir pelas tuas ruas, determinada e confiante, com um objectivo, ou ir apenas – sem destino algum. Gosto quando acordo e sinto que preciso de me sentar à beira rio. Só tu e eu. Sinto que nessa altura só nós percebemos quão bom é o beijo da brisa que o Tejo nos traz…todos os dias, há tanto tempo. Como é que ainda não se cansaram um do outro? Ele e tu, sempre no mesmo sítio. Sempre lindos, para nos dar a melhor luz, a melhor vista, a melhor cidade que sei que um dia vou conhecer. E tenho muito orgulho nisso, sabes?

Nunca pensei que escrever-te pudesse fazer-me emocionar. Mas o que é facto é que me trouxeste muitas coisas boas. Tantas que nem me lembro das más, porque tu – como o teu próprio nome diz – és boa. Boa demais para qualquer um que pisa o teu chão merecer. E se és assim, porque é que hoje também tu me fizeste sentir como se eu não te pertencesse? Porque é que me fizeste sentir que és grande e não me abraçaste? Não quero não me sentir confortável contigo, nem em ti. Não foi aqui que nasci, mas é a ti que trago no coração e és tu que sinto como minha casa. Fizeste-me acordar para a vida, fizeste-me crescer. Ensinaste-me tanto e tão mais do que podes imaginar! És a melhor cidade do mundo e és minha! Proíbo-te de me largar.

Anúncios
Standard
Chá das 3

A Guarda da Praia

Adorava ter uma casa pequenina numa praia onde o tempo estivesse sempre bom.
Consigo imaginá-la e a tudo o que a rodeia. É branca, tem paredes que são janelas, um pequeno alpendre – com uma rede onde confortavelmente me aninho a ler – e está exactamente em cima de uma duna rodeada apenas de pequenas ervas que ali cresceram sem pedir.

O clima é ameno. O termómetro nunca passa dos 28 graus, nem desce dos 20: é perfeito.
Não sei quem criou aquele sítio, mas certamente fê-lo num dia de grande inspiração. É o melhor sítio do mundo. O meu sítio.

Já pensei várias vezes em mudar-me para lá, mas, como em tantas outras ocasiões na vida, as circunstâncias não mo permitem. Ando sempre tão atarefada com coisas que me foram impostas, que às vezes parece que me esqueço daquilo que gosto, daquilo que me faz sentir bem, daquilo que é genuíno em mim e me faz ser eu.

Há sempre um padrão. Em tudo. E temos porque temos de segui-lo. Porque não é bem visto, porque não vamos ser alguém, ou, simplesmente, porque “é assim”. E aceitamos. Contentamo-nos com aquilo que nos é imposto, que, na maioria das vezes, vale tão pouco que esquecemos quão bom é sentir a concretização de uma ambição. Aquele sentimento de conquista que nos faz sentir plenos, bem connosco próprios. Esta antagonia do “eu” a que somos expostos mal vimos ao mundo não faz sentido.

A partir deste padrão criamos medos que não nos deixam sair da zona de conforto e quebrar essas malditas imposições que nos fazem acreditar que as coisas são boas se forem planeadas, todas iguais e totalmente predefinidas. Como se já soubéssemos, à partida, aquilo com que contamos, o que podemos esperar, o que vamos viver e como vamos fazê-lo. Isto está tão errado.

Fazem-nos acreditar em algo que ao longo da vida revela ser totalmente o oposto. Como? Da pior maneira. Achamos que se fizermos tudo bem daremos tantos trambolhões como um sempre-em-pé e, no fim, passamos o tempo a ir ao chão. De cara, às vezes.

É certo que depende de nós fazer com que as coisas mudem, sair da nossa zona de conforto. E eu queria tanto ir passar uns dias à minha casa pequenina naquela praia onde o tempo está sempre bom. Mas, como em tantas outras ocasiões na vida, as circunstâncias não mo permitem… Especialmente porque a minha casa pequenina naquela praia onde está sempre bom não existe. E eu não sei viver sem ela.

~ um chá de circunstâncias ~

Standard